9 de março de 2012

Arqueologia - A Rua de S.Vicente e a Canalização Sete Fontes




No âmbito do Programa “A Regenerar Braga”, está a ser levada a cabo uma intervenção de requalificação no Largo dos Penedos e Rua de S. Vicente, cujas primeiras acções incidem, precisamente nesta rua.

A reformulação da rua, visando ampliar a área pedonal, inibirá a circulação automóvel no troço a jusante, fazendo ligação ao Largo dos Penedos.

Nestas obras de intervenção estavam previstas acções de acompanhamento arqueológico, sobretudo devido à passagem da Via XVIII por aquele local.

Contudo, ao iniciar a remoção da pavimentação em paralelo, foram descobertas umas lajes graníticas que pareciam perfazer cobertura de uma estrutura subterrânea. Procedendo ao levantamento destas cápeas de granito, a equipa de obras ter-se-á deparado com a existência de uma galeria subterrânea que acolhe e protege uma extensão considerável de canalizações de pedra para condições de água.

Pela morfologia e tecnologia destas condutas, bem como pelos conhecimentos históricos já aferidos, percebe-se que estamos perante um ramal de canalizações que ligava a Caixa de Água existente no adro da igreja de S. Vicente (Imóvel de Interesse Público Decreto 1/86) ao Chafariz existente na Praça Alexandre Herculano (Largo dos Penedos) e daí, seguramente com derivação para o Fontanário Público da Cárcova, existente no Largo de S. Francisco, num dos extremos da Arcada.

Esta condução de águas era proveniente do lugar das Sete Fontes através de um complexo sistema de engenharia hidráulica do Séc.XVIII, obra sob a égide de D. José de Bragança, arcebispo de Braga.

Obviamente que estes achados não são propriamente uma total surpresa dado que por volta dos anos 40-50 do século passado interrompeu-se a ligação entre as condutas de pedra e ligaram-se tubos de ferro para evitar perdas de água e facilitar a manutenção.

Prova disso mesmo é o facto de a tubagem em ferro ainda conduzir água e a presença do sistema de apoio da canalização férrea em elementos pétreos. Contudo, sabia-se que as condutas de pedra não tinham sido destruídas. Também a própria AGERE, sempre que necessário, faz intervenções para melhorar o abastecimento de água ou o escoamento das águas de saneamento, como prova a construção de uma caixa de saneamento que está situada entre condutas de pedra. E há cerca de dois ou três anos foram ali colocadas novas tubagens de cada lado dos passeios, bem como arranjaram os escoamentos das águas pluviais.

Contudo, a exposição deste achado, associado às Sete Fontes, imóvel classificado como Monumento Nacional, bem como as circunstâncias de, com esta intervenção, colocar aquela parte da Rua de S. Vicente pedonal, justificam a hipótese de musealizar e valorizar este troço de condutas.

Em primeiro lugar, acreditamos que a regeneração do Largo dos Penedos e parte jusante da Rua de S.Vicente poderá ser benéfica para a qualidade de vida dos cidadãos, bem como poderá incrementar uma melhoria urbanística na imagem da cidade.

Contudo, a perda do trânsito automóvel na Rua de S. Vicente poderá o efeito de afastar pessoas que diariamente por ali passavam. Retirando esta mais-valia, devemos poder criar outros benefícios que, a par da própria requalificação urbanística, atraiam as pessoas àquela rua. Ora, a fruição do património e os dividendos turísticos são cada vez maiores, quanto mais se investe na sua preservação e divulgação.

A prosperidade e o bem-estar da nossa cidade dependerá das ideias que tivermos evoluírem. Precisamos saber aproveitar as condições que se nos afiguram e fazer delas oportunidades, encontrar novas e revigorantes perspectivas. As nossas heranças culturais e as tecnologias artísticas não são algo acessório, são, também, uma forma de pensar e uma prática inovadora de trabalho com a realidade. Integrando mais amplamente a cultura no planeamento urbano, na política social e no desenvolvimento das empresas, podemos tornar as cidades muito mais sustentáveis do ponto de vista económico e também mais atraentes e agradáveis. (Elbaek, U. e Vassiliou, A.)

O troço de canalização, agora posto a descoberto, ganha maior motivo de interesse porque não se resume unicamente às peças de granito do Século XVIII.

As canalizações estão inseridas num sistema de galeria técnica subterrânea, que permite a circulação de uma pessoa para efectuar a manutenção às peças de canalização. Prova disso mesmo é o facto de as manilhas graníticas terem os pontos de acesso para manutenção (vulgarmente denominados por “raposos”) posicionados lateralmente e não no topo como se verifica nas Sete Fontes.

A tecnologia de colocar as manilhas graníticas de lado permitia que o funcionário circulasse na galeria, acedesse aos “raposos” e retirasse a vegetação e outros elementos que prejudicassem a qualidade e fluidez da água. Esta galeria técnica permitia proteger a condução de água, a passagem da pessoa responsável pela manutenção no seu interior, mas possibilitava, ainda o trânsito de pessoas e veículos à superfície, uma vez que esta estrutura estava coberta por lajes de granito, compondo a cota de circulação.

Assim, pelo exposto, solicitamos a V/ Ex.ª que se possa estudar uma forma de conservar, musealizar e fruir deste troço de canalização, que enaltece a memória de D. José de Bragança, arcebispo de Braga, pensador da cidade e da qualidade de vida dos cidadãos, bem como perpetua a profissão dos agueiros (responsáveis pela manutenção da condução de água) dos canteiros (operários que trabalhavam a pedra) e da própria toponímia do local (Largo dos Penedos, onde havia uma pedreira, e a Rua de S. Vicente que antigamente se chamava Rua dos Chãos de Cima, seguramente associado à existência de pisos em lajes de pedra).

Uma vez que a canalização e galeria estão posicionadas mais ou menos no eixo da via, estas podem ser conservadas se se mantiver a vala aberta, coberta com um material reforçado (tipo vidro/acrílico extremamente resistente) ou por uma grelha que permitisse quer a visualização para a cota inferior, quer permitisse a circulação das pessoas e de veículos excepcionais (moradores, veículos prioritários) à superfície.

Obviamente que esta sugestão carece de estudos mais aprofundados, sendo considerada apenas uma hipótese rudimentar, mas que acreditamos poder vir a trazer uma mais-valia nas políticas de conservação de valorização do património, bem como um substancial incremento turístico daquela zona da cidade.


1 comentário:

Miguel Marques disse...

Optimas noticias... creio porem q a importancia da estrutura merecia uma caracterização arqueológica por intermédio de escavação de um troço. Por mais pequeno que fosse muita informação poderia ser retirada. Sei por experiencia propria que esta ideia nao acolhe grande aceitação.